Certamente fatores biológicos, genéticos e neuroquímicos têm importante peso nos diversos quadros depressivos. Do ponto de vista psicológico, as síndromes depressivas têm uma relação fundamental com as experiências de perda. As síndromes e as reações depressivas surgem com muita freqüência após perdas significativas: de uma pessoa muito querida, de um emprego, de um local de moradia.
Geralmente, a depressão ocorre em situações específicas em conseqüência de perdas materiais ou afetivas. Não podemos negar que a vida é uma sucessão de perdas, mas é a forma pela qual cada um de nós reage é que poderá desenvolver ou não um quadro depressivo. Nem sempre a perda se refere a morte ou separação, mas também por um sentimento de decepção em relação aos outros e muitas vezes, em relação a si mesmo. E decepções não nos faltam nas relações humanas em geral. E em qualquer dos casos há uma significativa baixa da auto-estima.
Neste sentido, vejam como o poeta fala da experiência marcante, que é a perda da pessoa amada:
A que perdi está misturada, tão misturada comigo
Que ás vezes sobre ao meu coração o seu coração morto
E sinto o seu sangue correr nas minhas veias.
A que perdi é tão presente no meu pensamento
Que sinto misturarem-se com as minhas lembranças de infância as lembranças de sua infância desconhecida.
A que perdi é tão minha que as minhas lágrimas vieram dos seus olhos.
E as suas é que descem dos meus.
A que perdi está dentro do meu espírito com o filho no corpo materno
Como o pensamento na palavra
Como a morte no fim dos caminhos do mundo.
Augusto Frederico Schmidt
Outro exemplo são os casos dos idosos. Nessa faixa etária sentimentos de frustração perante os anseios de vida não realizados e a própria história do sujeito marcada por perdas progressivas – do companheiro, dos laços afetivos e da capacidade de trabalho – bem como o abandono, o isolamento social, a incapacidade de reengajamento na atividade produtiva, a ausência de retorno social do investimento escolar, a aposentadoria que mina os recursos mínimos de sobrevivência, são fatores que comprometem a qualidade de vida e predispõem o idoso ao desenvolvimento de depressão.
Também do ponto de vista biológico, na idade avançada é mais freqüente o aparecimento de fenômenos degenerativos ou doenças físicas capazes de produzir sintomatologia depressiva.